terça-feira, 23 de novembro de 2010

O incrível caso do Exu 7 da Lira

A Mãe de Santo Cacilda de Assis foi um dos médiuns mais polêmicos da história da religião brasileira, graças ao Exu que lhe assistia. Aos 13 anos de idade recebeu pela primeira vez o "Seu" Sete Rei da Lira, o qual foi assentado em 13 de junho de 1938, aos 15 anos, quando Cacilda recebeu sua iniciação de seu Pai, Benedito Galdino do Congo, em Coroa Grande, próximo da conhecidíssima Itacuruçá, no Rio de Janeiro (local onde funcionou um outro importantíssimo terreiro da história das religiões brasileiras). Ela também trabalhava com a Pomba Gira Audara Maria.

Mãe Cacilda de Assis em seu programa de rádio

O Rei da Lira se apresenta como Exu, muito embora suas características originais o liguem mais ao mundo da encantaria, onde é conhecido como Sete Rei da Lira, José das Sete Liras ou o Rei das Sete Liras. Poucos conhecem a sua história como encantado, que começa na Idade Média e vai até a sua reencarnação no século dezenove. Na Espanha Medieval, havia um casal: Caio e Zelinda. Caio era um descendente de gregos, que tocava e fabricava instrumentos musicais, especialmente liras. Zelinda era uma bela negra africana, que escondida dos poderosos da época, fazia rituais mágicos.



Tiveram um filho chamado José, que era muito inteligente e tocava instrumentos como ninguém. O garoto herdou do pai o gosto para tocar e fabricar liras, das quais construía 7 diferentes modelos. Da mãe herdou os poderes paranormais: curava pessoas doentes, movia objetos com o olhar, tinha sonhos premonitórios, via a aura das pessoas etc. Na adolescência, conta a lenda que o garoto passou a incorporar espíritos enquanto tocava e uma destas almas seria a do bíblico Rei Davi. Por fazer muito sucesso com as mulheres, um marido ciumento entregou-o para os representantes da igreja, acusando José das Sete Liras de bruxaria. Foi queimado na fogueira pela Inquisição.

Seu Sete da lira trabalhando

A fama do Exu Sete Rei da Lira que baixava em Mãe Cacilda começou a crescer rapidamente devido à característica inusitada de suas giras - onde todo tipo de música poderia ser cantada e tocada - e no uso impressionante da ingestão de vários litros e litros de "marafo", além da roupa ritualística bordada em veludo preto, botas, capas e cartola. Quem presenciou a manifestação deste espírito se impressionou com o magnetismo e com a capacidade de movimentação das pessoas que acorriam ao seu templo, em Santíssimo, um bairro do Rio de Janeiro. Corriam as notícias de boca a boca, dos casos de cura de doenças gravíssimas etc e rapidamente a gira de seu Sete chegou à marca impressionante de mais de cinco mil pessoas por rito.

Compositora e escritora, Mãe Cacilda tinha um programa na Rádio Metropolitana de Inhaúma e o caso é que a fama de seu 7 se espalhou tanto que artistas como Tim Maia, Freddie Mercury e o grupo Kiss estiveram por lá sabe-se lá por qual razão, até que um dia alguém foi até o terreiro e desafiou o Exu a baixar em rede nacional. Ao contrário do que se esperava, o seu Sete concordou e foi aí que o "dendê ferveu"!

Fotos das milhares de pessoas que acorriam ao templo de seu Sete da Lira. Olhe bem e descubra onde está o Exu!

Eu me lembro bem do fato, pois todo mundo comentou: foi em 1971, eu tinha 5 anos e me é inesquecível o sotaque de uma portuguesa da vila em que eu morava no bairro do bexiga em sampa, agressiva e transtornada, ao comentar: "Um ab'surdo, c'mo deixaram um d'mônio daq'les b'xar no p'grama do Ch'crinha?? Viram o que el' fêx?? A revolta da mulher, católica radical (ainda não existiam os neopentecostais que mais tarde se aproveitariam do mesmo tipo de discurso), era acompanhada de uma credulidade não assumida: "T'do bem, o santo baixou em todo mundo, isso realmente é difícil de explicar, mashhhh..."


Seu Sete da Lira no programa "Flávio Cavalcanti"

Incorporada pelo Exu "Seu" 7 Rei da Lira Cacilda havia transformado os programas de Chacrinha e Flávio Cavalcanti num verdadeiro ritual de Kimbanda, daqueles mais bravos. Não se questiona aqui a veracidade da presença do Exu naqueles momentos, ou se é válido esse tipo de exposição ou de manifestação em público, mas há a verdade inquestionável de que algum poder realmente tomou conta das pessoas naqueles programas, pois platéia, cantores, assistentes de câmera, seguranças, contrarregras e outros entraram em transe, desmaiaram ou foram "mediunizados" por exus e outras entidades.

Inabalável, seu Sete da Lira após "tocar a macumba" no programa de Flávio Cavalcanti, sem desincorporar saiu de carro dos estúdios da TV Tupi acompanhado por seus cambonos e foi até os estúdios da Rede Globo no programa do Chacrinha e nem bem entrou no palco, o mesmo fenômeno aconteceu: Chacretes, músicos, diretores e outros entraram em transe.

O próprio Chacrinha, o rei da caricatura e da esbórnia ficou sem ação, conforme o relato do professor universitário Paulo Duarte: "(...) me causou espanto, assistir, há dias àquele espetáculo de 'Seu Sete', apresentado como se fosse um retrato do Brasil: uma 'mandingueira' de cartola e charuto, espargindo cachaça pela multidão em transe, como um sacerdote o faz com água benta. Um adolescente entrou para colaborar, quando foi 'tomado' diante da Mãe de Santo. Esta, que já bebera em público largos goles de pinga, esborrifou-lhe o rosto com um pouco da bebida, aos efeitos mágicos da qual o moleque voltou à razão em meio ao alvoroço da multidão, sob o patrocínio de um Chacrinha mais inconsciente que legítimo".


Reportagem na revista "Amiga" de 1970, sobre seu 7 da lira (Cortesia do irmão Maleronka!)

Na Censura Federal centenas de telefonemas de protestos e de narrativas de pessoas que haviam entrado em transe em suas casas entupiram as centrais telefônicas, a Igreja Católica constrangida reuniu sua cúria para debater o problema e a concessão das duas emissoras de TV quase foram suspensas pelo governo, alegando a defesa da "moralidade" e dos "bons costumes".

Na verdade, o que podemos concluir é que a Umbanda e as religiões afrobrasileiras fazem parte de uma parcela do imaginário brasileiro - principalmente a Kimbanda - que se for colocada à mostra em sua totalidade, pode gerar efeitos inesperados no senso comum e padrão das classes sociais e religiosas acomodadas, pois raramente se viu na história da cultura brasileira a religiosidade das classes subalternas manifestar-se de modo tão expontâneo e incontrolável e ainda, em escala nacional, como foi feito pelo Sr. Exu da Lira e só por ele, sozinho!

Uma das últimas fotos de Cacilda de Assis mediunizada... paradeiro????

Pela primeira vez na história do país, cujo Estado e cujas classes dirigentes desfiam ao longo dos tempos uma compreensão e narrativa eurocêntrica sobre si mesmos, a sociedade brasileira se viu obrigada e se olhar no espelho tão profundamente que não aguentou se ver tão frágil e desnuda frente aos efeitos do trabalho de um Exu Guardião. E as reações subsequentes revelaram ainda posicionamentos elitistas arraigados nas velhas estruturas de dominação e da luta de classes no plano das representações simbólicas. Entre o próprio povo do santo a coisa se dividiu: em conversa com nosso querido amigo, o pai Pedro Miranda, esse nos relatou que certas "cúpulas" umbandistas da época recusaram-se a tentar entender o fenômeno "da Lira" e também tentaram abafar o caso...

Mas o evento mais grave e interessante aconteceria longe, no centro do poder: estavam assistindo aos programas o então presidente Médici e sua esposa D. Cyla. Indignado, o general iria tomar algumas "providências" contra Mãe Cacilda, quando, subitamente, ao seu lado, D. Cyla, incorporada, dá uma sonora gargalhada, pede uma rosa, uma champanhe e diz pro presidente não mexer com quem não podia...

Bastidores do Brasil... bastidores da Kimbanda...

Ao sr. Sete Rei da Lira: Mojubá Exu!!

http://acervoayom.blogspot.com/2009/05/sete-rei-da-lira-1971.html

15 comentários:

beijamim disse...

Esse eu gostei mesmo!

beijamim disse...

A primeira vez que ouvi a música cantada pelo Cartola falando em nome do Sete da Lira, fiquei felicíssimo, até hoje não entendo bem o porquê.
De fato, creio que reconhecí que somos todos bem parecidos com os exús e que sua força está presente em nós.

Fernando Augusto disse...

Exu é uma força sagrada, divina, uma pena que não saibamos lidar com esta força. Éa força do prazer, da alegria, do sexo, é a força dionísiaca, é uma altíssima vibração, mas é preciso um certo saber e uma certa força para lidar com o saber e a força de Exu. O caso do seu Sete da Lira é emblemático e revela o poder que há na força de Exu. Laroiê, Exu!

Meru Sâmi disse...

O meu Exu é o Senhor Sete Liras, e, realmente pode tocar qualquer tipo de música que ele aceita e dança. Costuma deixar todos meio tontos ao seu redor, pois é uma PRESENÇA que ninguém pode ignorar.

- LARO-YÊ Senhor, Firmeza em nossa Banda!

Fernando Augusto disse...

Salve este grande Exu! Salve todas as falanges de Exu. Que sua proteção e alegria vibre sempre em nós!

Laroiê, Exu! Gira Girê!

dagoberto disse...

NAO SO AMO ESSE EXU COMO FIQUEI PASMO AO LER ESTAS PALAVRAS QUE JA SAIRAM DELE MESMO EM MEU TERREIRO COISAS SURPREENDENTES SARAVA SEU 7 LIRAS 17 ANOS DE LUZ E MAGIA DE INCORPORAÇAO EM MEU CORPO.PAI DAGOBERTO DE OXALA 51 9735 9802

Jon@s Brother Br@sil disse...

Tenho muito respeito e orgulho de receber Seu 7 Rei da Lira.
Creio no poder de sua magia, sou grato por tudo que fez e tem feito em minha vida.

Entidade de muita reverência.

Laroiê Exú, Mojubá Exú.

lori disse...

seu sete da lira vem na bandeira de oxalá, sou muito grato por receber e trabalhar com esta entidade que só traz alegria paz amor e esperança a todo aquele que vem em busca do bem, salve exu e despedida rei das sete liras salve as nove almas de luz.
que a paz esteja conosco.

serginho (13) disse...

itolua
É com muito orgulho ,que faço o meu pequeno comentário sobre seu Sete da Lira ! tenho 62 anos , e conheci seu 7 , em Santissimo, devia ter meus 22 anos + ou - ; fiquei muito feliz quando encontrei no site uma reportagem sobre seu 7 ;sou médium de um terreiro, e quero zelar pela imagem em nome de seu 7... farei todos os possíveis para ser um bom zelador. Loriê seu 7 !!!

serginho (13) disse...

Se um dia , tiver que ter uma entidade de um Exú , com todo os respeito aos demais , gostaria de ter ao meu lado ,o sr. Sete da Lira ;tenhomuita afinidade com ele , pois foi o primeiro Exú que conheci , e me identifiquei ...Salve o sr.sete da Lira !!!

Ayom Records disse...

Olá, Serginho. Gostariamos imensamente de conversar com você sobre o seu 7. Por favor entre em contato conosco no emaial ayom77@gmail.com Obrigado.

Marco V. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marco V. disse...

Conheci o Exu 7 da Lira, que fazia suas sessões em Santíssimo - RJ, tornando-me amigo depois de Cacilda Assis de Souza. Embora nos últimos anos a frequência de fiéis diminuisse, esse luminar espírito continuava com seu trabalho, de forma gratuita, sem nada pedir a quem quer que fosse. Cacilda Assis de Souza nos deixou fisicamente. Foi enterrada no cemitério de Inhaúma há alguns anos. Estive lá, ao lado dos familiares, que também me são amigos. Na ocasião cantei o Hino da Umbanda, sendo acompanhado por parentes e amigos que prestavam sua última homenagem.
Saravá o Exu Rei Sete da Lira

5 de maio de 2013 16:27

Marco V. disse...

Em tempo: Nas várias conversas informais que tive com a amiga Cacilda de Assis,em meio ao lanche da tarde, ou usufruindo um cafezinho, ela sempre me dizia que após o seu desencarne,o espírito Exu Rei Sete da Lyra encerraria a sua missão como espírito incorporante. E assim aconteceu......

Henrique Dantas disse...

se isso ocorreu mesmo p´q não nenhum vídeo?